Bem, agora que tenho certeza de que tenho leitores, fiquei bem mais animada a escrever. E olhando a RTPI (Televisão Portuguesa Internacional) fiquei de repente morta de saudades de meus amigos portugueses de Bruxelas. E comecei a lembrar-me dos primeiros dias de trabalho. Caí literalmente de paraquedas, e lembro-me de meu primeiro dia. Muito emocionada, cheguei a um edifício da Comissão Europeia (nova ortografia, não creiam que me esqueci do acento) chamado Albert Borschette, na place Jourdan. Cheguei à 9:30 da manhã, para ter tempo de olhar os documentos (as reuniões começam geralmente às 10) e não havia quase ninguém! Fiquei espantadíssima e quem me ajudou foi um colega holandês, o Henk, de quem acabei ficando amiga. Ele foi um dos primeiros a me ajudar a buscar documentos, etc. Lembro-me também de ter perguntado a uma colega portuguesa, Rosário Carneiro, onde poderia encontrar água, e qual não foi minha surpresa quando ela disse: “Na casa de banho” !! De repente me dei conta de que sabia quase nada sobre Portugal e de que havia diferenças entre o Português do Brasil e o Português de Portugal. Além disso, o Espanhol de Espanha era completamente diferente do latino americano, ou melhor dos vários latino americanos, o Francês dos belgas idem, o Inglês dos irlandeses incompreensível para mim, em resumo, foi dificílimo no começo!
Foi quase reaprender minha própria língua, além de ter de aprender várias outras. Sem falar no jargão comunitário, muito específico, e no que eles chamam de “acervo comunitário”, ou seja, tudo que já existe em termos de legislação, etc. Não modifiquei meu sotaque, é óbvio, pois não consigo reproduzir a fonética portuguesa, muito mais complexa que a nossa, mas tive de readaptar muito vocabulário.
Por exemplo, um fato em Português de Portugal é um terno. O que nós chamamos de fato para eles é um facto. Portanto, é importante estabelecer a diferença na pronúncia, pois há aí uma diferença de sentido. E há coisas como “cimeira” para conferência de cúpula, “retrete” ou “sanita” para vaso sanitário, “duche” (no masculino, um duche) para chuveiro, etc. Acabei aprendendo depressa, pois alguns de meus primeiros amigos foram colegas de cabine, entre os quais Pilar Ribeiro, Rui Duarte e Stella Costa Santos, grandes e queridos amigos até hoje (e em ordem alfabética, pois todos eles têm espaço igual em meu coração). É importante usar essas expressões no dia a dia, para se tornarem automáticas na cabine.
E eu também via muita televisão, sobretudo em Inglês e Francês. Nesse meio tempo, depois de ficar três meses no aparthotel, consegui um apartamento mobiliado num bairro elegante de Bruxelas, Woluwé Saint Lambert. O apartamento estava a vinte passos do metrô, com o qual eu chegava ao trabalho em 5 minutos, porta a porta.
Também comecei a fazer ginástica, onde conheci mais pessoas.
Conheci outra grande amiga também nessa época: Sandra Gallina, italiana, nascida na Venezuela.
Sandra é altíssima, e tem Português em sua combinação linguística. Um belo dia, vem ela me perguntar expressões portuguesas no banheiro do Conselho de Ministros (o órgão legislativo da União).
Estava lendo um livro de um autor português, Miguel Esteves Cardoso, cheio de crônicas deliciosas.
Como eu não conhecia muitas das expressões, acabei perguntando a outro colega, Carlos Alegria (também acabou se tornando meu grande amigo). E assim fui aprendendo muitas coisas. Mas minha principal preocupação foi tentar aprender Espanhol a sério, pois a Presidência do Conselho seguinte era a espanhola.
Não sei se sabem que na União Europeia, um país assume a presidência do Conselho de Ministros a cada seis meses. Assim, representantes daquele país presidem a todas as reuniões no Conselho. O Conselho de Ministros é o órgão legislativo da União; a Comissão é o executivo, com direito a propor legislação, e o Parlamento Europeu e o Comité Econômico e Social são órgãos consultivos. Hoje em dia
(já há mais de 10 anos), há também o Comité de Regiões, outro órgão consultivo.
Com a perspectiva da presidência espanhola no semestre seguinte e desesperada pois os entendia muito mal, decidi ir para Santander (Cantábria, norte da Espanha) durante o mês de agosto daquele ano, para aprender um pouco mais. Fiquei completamente apaixonada pela Espanha e pelos espanhóis.
Na minha cabeça, a Espanha ainda estava na época de Felipe II, todos vestidos de preto e de golas “fraise”, aquela gola de renda em camadas… Surprise, surprise! A Espanha estava em plena ebulição da “movida”, tirando o atraso dos anos de ditadura franquista. Além disso, Santander é uma cidade de veraneio muito agradável, e a Universidad Internacional Menendez Pelayo tem grande tradição no ensino de Espanhol como segunda língua.
Hospedei-me com uma família espanhola: pai (Enrique), mãe (Nati) e filho único (já não me lembro do nome). Os santanderinos têm longa tradição de alugar quartos, visto ser uma cidade balneária. Lembro-me que achei estranho o café que me servia Nati. Quando olhei melhor, vi que era chicória, coisa que devem ter usado desde a guerra civil. Tratei de comprar Nescafé rapidamente…
Os hábitos e horários espanhóis também são muito diferentes. Por exemplo, ao meio dia eles comem um lanchinho (que pode ser un pincho de tortilla) e um café (solo o cortado con leche). Àquela hora, eu já estava varada de fome e aquilo para mim era o almoço… Eles iam almoçar às três da tarde.
Às vezes, em vez de fazer curso de língua espanhola com os estrangeiros, eu ia para o Palácio de la Magdalena, antiga residência de verão dos reis da Espanha, onde havia cursos que davam créditos para universitários espanhóis. O importante para mim na época era ouvir, e não falar. E os cursos eram fantásticos! Lembro-me de ter feito um sobre a transição para a democracia, com gente que tinha feito a transição, como o deputado comunista Santiago Carrillo, que contou da tentativa de golpe contra o Parlamento, o famoso 23 f (de fevereiro). Tinha gente pendurada no lustre, de tão cheio!
À tarde, havia cursos de Literatura, História e Geografia no Edifício Las LLamas, onde são as aulas para estrangeiros. Ótimos também. Eles também convidam escritores famosos para falar, há filmes, concertos e até aulas de flamenco! AMEI minha temporada espanhola!
De volta a Bruxelas, fiz o teste para acrescentar Espanhol como língua de trabalho. Passei, mas neca de contrato como temporária, que era o que eu queria. Continuei como freelance, mas tinha todo trabalho todos os dias. Continuava estudando Espanhol, que não é tão fácil quanto parece, por causa dos falsos cognatos, e comecei a ter aulas de flamenco, outra paixão desde que vira o filme de Saura
Bodas de Sangre. Só que eu sou ruim à beça na dança…
More tomorrow… Vou tentar arranjar umas fotos dessa época.
2 Oct. 2008 at 5:27 PM
Gli amici di Bruxelles sono “abasourdis de respect” dinanzi a questo capolavoro di sito!! Non è solo un sito ma anche una specie di diario dove ritrovo curiosità e episodi della tua vita!!! Non ho ancora potuto leggere tutto (mi ci vorrà una lunga permanenza a Srasburgo!!) ma non vedo l’ora di leggere qualche puntata della tua vita… sarà molto più interessante e divertente di qualsiasi telenovela brasiliana!!!
Beizinhos!
clara
6 Oct. 2008 at 9:43 PM
Querida,
Quando lhe escrevi sobre o site, a idéia era justamente proporcionar-lhe um pouco de leitura em Português (do Brasil, mas sempre Português) e sobre temas que têm muito a ver com nossa profissão.
Saudades de nossas idas a Estrasburgo juntas!