Como eu dizia, vou explicar como funcionam as reuniões: lembrem-se que são representantes dos Estados-Membros da União Europeia que se reunem todos os dias para debater os mais variados assuntos. Se pede a palavra o representante da Itália, o intérprete que tiver Italiano em sua combinação linguística irá traduzi-lo para o Português em cabine portuguesa, para o Inglês em cabine inglesa e assim por diante. E se nenhum intérprete em cabine portuguesa tiver Italiano, pegamos o que se chama de “relais”. Por ex., alguém em cabine francesa tem Italiano passivo e o traduz para o Francês. Aí ouço a cabine francesa e traduzo do Francês para o Português. Foi aliás o que me aconteceu quando cheguei lá. Como não tinha domínio completo do Italiano, fazia do relais (lê-se relé). Depois decidi aprender Italiano, e aí passei a traduzir diretamente do Italiano. Mas tinha de fazer relais do Alemão se não houvesse nenhum outro colega com Alemão em sua combinação.
Espero que tenha ficado claro.
Vou pedir permissão ao Serviço Comum Interpretação Conferências da União Europ., conhecido como SCIC, para mostrar uma folha de equipe. É um verdadeiro quebra-cabeças montar uma equipe, pois é preciso ver quem tem que línguas em cada cabine, pensar nos relais e assim por diante. Hoje em dia isso é feito por computador, mas sempre ajudado por uma boa cabeça humana, no caso outra grande amiga, Paula Rebelo, encarregada da programação.
Achei que deveria contar-lhes como é a vida de um intérprete nas instituições européias, pois é muito diferente da profissão aqui no Brasil. Aqui por ex., é-se chamado muitas vezes de um dia para o outro
(meu caso hoje: fui chamada para trabalhar amanhã). Isso é comum quando se trabalha no mercado privado.
Agora, quando se trabalha para instituições, a coisa é mais organizada. Claro que há reuniões inesperadas (por ex., se houver uma crise, uma catástrofe, essas coisas). Mas em geral é tudo planejado com antecedência, sobretudo porque às vezes os delegados vêm de cada Estado-membro da União Europeia só para a reunião. E eles precisam organizar as salas (ver se há salas disponíveis) e os intérpretes, o que não é nada fácil se pensarmos que atualmente são 20 línguas de trabalho!
É,vocês leram direito: são vinte e sete Estados-membros e 20 línguas oficiais. Nem todas as reuniões se realizam com as 20 línguas oficiais. Só quando são reuniões políticas de muita importância, tipo Conselhos de Ministros, quando vêm os Ministros dos 27 Estados-Membros.
Geralmente as reuniões têm um regime linguístico variável, dependendo das necessidades, que pode ir de 3 (Inglês, Francês e Alemão) a 6, 9, 12. É variado. Quando as reuniões têm até 6 idiomas, há dois intérpretes por cabine. Quando há mais de seis línguas, há três intérpretes por cabine.
Sei que as eleições parecem não ter nada a ver com minha vida profissional, mas na realidade tem tudo a ver. Como disse quando expliquei minha ida a Bruxelas, fui movida pelo desânimo e pela descrença no futuro do país. Achei na época que minha geração seria muito sacrificada pela década perdida, como de fato o foi. Assim, gostaria de pedir a todos que pensassem muito bem em quem vão votar, pois isso tem consequências diretas em nossas vidas, futuro, famílias, etc. Não é um ato inconsequente, muito pelo contrário. E é preciso conhecer os candidatos, saber se é gente íntegra e também conhecer suas idéias. É muito importante saber por ex. o que pensam com relação a normas trabalhistas, privatizações, etc., para não elegermos jurássicos que vão continuar a condenar-nos a um futuro no mínimo medíocre.
Portanto, pessoal, pensem bem e mandem bala! O país agradece. E eu também.
Pessoal,
Prometo que contarei mais como são os dias de trabalho para a Comissão Europeia, para o Parlamento
(para o qual comecei a trabalhar em setembro de 1988), e para o Conselho de Ministros, mas antes tenho de falar do debate de ontem na Bandnews.
Estava eu voltando para casa depois de um trabalho pela manhã sobre a situação no mercado financeiro (argh!) quando me telefonou o Walter, amigo e colega, sócio do Escritório de Intérpretes, do qual também sou sócia.
“Posso lhe fazer uma proposta indecente?” perguntou. Eu disse, “Claro!”. “Quer traduzir debate entre os dois candidatos à V.P. dos EUA?” Eu nem hesitei:”Claro que sim!”.
E lá fomos nós. É a segunda vez que traduzo esse tipo de debates na TV. A primeira foi há quatro anos, justamente. Era um debate entre o Bush e o Kerry, em que eu traduzi o moderador. Desta vez éramos dois para a moderadora, a Gov. do Alaska Sarah Palin (vice do John McCain) e o Sen. por Delaware Joe Biden (vice de Obama).
É um trabalho muito tenso e intenso, onde podem aparecer inúmeras armadilhas, pois pode “pintar” qualquer coisa!
Enfim, foi dificílimo, mas creio que demos conta do recado. Saímos de lá exaustos às 23:30, mas valeu.
Minha mãe me telefonou imediatamente, dizendo que tinha sido ótimo, mas sabem como é, mãe é suspeita…
Bem, agora que tenho certeza de que tenho leitores, fiquei bem mais animada a escrever. E olhando a RTPI (Televisão Portuguesa Internacional) fiquei de repente morta de saudades de meus amigos portugueses de Bruxelas. E comecei a lembrar-me dos primeiros dias de trabalho. Caí literalmente de paraquedas, e lembro-me de meu primeiro dia. Muito emocionada, cheguei a um edifício da Comissão Europeia (nova ortografia, não creiam que me esqueci do acento) chamado Albert Borschette, na place Jourdan. Cheguei à 9:30 da manhã, para ter tempo de olhar os documentos (as reuniões começam geralmente às 10) e não havia quase ninguém! Fiquei espantadíssima e quem me ajudou foi um colega holandês, o Henk, de quem acabei ficando amiga. Ele foi um dos primeiros a me ajudar a buscar documentos, etc. Lembro-me também de ter perguntado a uma colega portuguesa, Rosário Carneiro, onde poderia encontrar água, e qual não foi minha surpresa quando ela disse: “Na casa de banho” !! De repente me dei conta de que sabia quase nada sobre Portugal e de que havia diferenças entre o Português do Brasil e o Português de Portugal. Além disso, o Espanhol de Espanha era completamente diferente do latino americano, ou melhor dos vários latino americanos, o Francês dos belgas idem, o Inglês dos irlandeses incompreensível para mim, em resumo, foi dificílimo no começo!
Foi quase reaprender minha própria língua, além de ter de aprender várias outras. Sem falar no jargão comunitário, muito específico, e no que eles chamam de “acervo comunitário”, ou seja, tudo que já existe em termos de legislação, etc. Não modifiquei meu sotaque, é óbvio, pois não consigo reproduzir a fonética portuguesa, muito mais complexa que a nossa, mas tive de readaptar muito vocabulário.
Por exemplo, um fato em Português de Portugal é um terno. O que nós chamamos de fato para eles é um facto. Portanto, é importante estabelecer a diferença na pronúncia, pois há aí uma diferença de sentido. E há coisas como “cimeira” para conferência de cúpula, “retrete” ou “sanita” para vaso sanitário, “duche” (no masculino, um duche) para chuveiro, etc. Acabei aprendendo depressa, pois alguns de meus primeiros amigos foram colegas de cabine, entre os quais Pilar Ribeiro, Rui Duarte e Stella Costa Santos, grandes e queridos amigos até hoje (e em ordem alfabética, pois todos eles têm espaço igual em meu coração). É importante usar essas expressões no dia a dia, para se tornarem automáticas na cabine.
E eu também via muita televisão, sobretudo em Inglês e Francês. Nesse meio tempo, depois de ficar três meses no aparthotel, consegui um apartamento mobiliado num bairro elegante de Bruxelas, Woluwé Saint Lambert. O apartamento estava a vinte passos do metrô, com o qual eu chegava ao trabalho em 5 minutos, porta a porta.
Também comecei a fazer ginástica, onde conheci mais pessoas.
Conheci outra grande amiga também nessa época: Sandra Gallina, italiana, nascida na Venezuela.
Sandra é altíssima, e tem Português em sua combinação linguística. Um belo dia, vem ela me perguntar expressões portuguesas no banheiro do Conselho de Ministros (o órgão legislativo da União).
Estava lendo um livro de um autor português, Miguel Esteves Cardoso, cheio de crônicas deliciosas.
Como eu não conhecia muitas das expressões, acabei perguntando a outro colega, Carlos Alegria (também acabou se tornando meu grande amigo). E assim fui aprendendo muitas coisas. Mas minha principal preocupação foi tentar aprender Espanhol a sério, pois a Presidência do Conselho seguinte era a espanhola.
Não sei se sabem que na União Europeia, um país assume a presidência do Conselho de Ministros a cada seis meses. Assim, representantes daquele país presidem a todas as reuniões no Conselho. O Conselho de Ministros é o órgão legislativo da União; a Comissão é o executivo, com direito a propor legislação, e o Parlamento Europeu e o Comité Econômico e Social são órgãos consultivos. Hoje em dia
(já há mais de 10 anos), há também o Comité de Regiões, outro órgão consultivo.
Com a perspectiva da presidência espanhola no semestre seguinte e desesperada pois os entendia muito mal, decidi ir para Santander (Cantábria, norte da Espanha) durante o mês de agosto daquele ano, para aprender um pouco mais. Fiquei completamente apaixonada pela Espanha e pelos espanhóis.
Na minha cabeça, a Espanha ainda estava na época de Felipe II, todos vestidos de preto e de golas “fraise”, aquela gola de renda em camadas… Surprise, surprise! A Espanha estava em plena ebulição da “movida”, tirando o atraso dos anos de ditadura franquista. Além disso, Santander é uma cidade de veraneio muito agradável, e a Universidad Internacional Menendez Pelayo tem grande tradição no ensino de Espanhol como segunda língua.
Hospedei-me com uma família espanhola: pai (Enrique), mãe (Nati) e filho único (já não me lembro do nome). Os santanderinos têm longa tradição de alugar quartos, visto ser uma cidade balneária. Lembro-me que achei estranho o café que me servia Nati. Quando olhei melhor, vi que era chicória, coisa que devem ter usado desde a guerra civil. Tratei de comprar Nescafé rapidamente…
Os hábitos e horários espanhóis também são muito diferentes. Por exemplo, ao meio dia eles comem um lanchinho (que pode ser un pincho de tortilla) e um café (solo o cortado con leche). Àquela hora, eu já estava varada de fome e aquilo para mim era o almoço… Eles iam almoçar às três da tarde.
Às vezes, em vez de fazer curso de língua espanhola com os estrangeiros, eu ia para o Palácio de la Magdalena, antiga residência de verão dos reis da Espanha, onde havia cursos que davam créditos para universitários espanhóis. O importante para mim na época era ouvir, e não falar. E os cursos eram fantásticos! Lembro-me de ter feito um sobre a transição para a democracia, com gente que tinha feito a transição, como o deputado comunista Santiago Carrillo, que contou da tentativa de golpe contra o Parlamento, o famoso 23 f (de fevereiro). Tinha gente pendurada no lustre, de tão cheio!
À tarde, havia cursos de Literatura, História e Geografia no Edifício Las LLamas, onde são as aulas para estrangeiros. Ótimos também. Eles também convidam escritores famosos para falar, há filmes, concertos e até aulas de flamenco! AMEI minha temporada espanhola!
De volta a Bruxelas, fiz o teste para acrescentar Espanhol como língua de trabalho. Passei, mas neca de contrato como temporária, que era o que eu queria. Continuei como freelance, mas tinha todo trabalho todos os dias. Continuava estudando Espanhol, que não é tão fácil quanto parece, por causa dos falsos cognatos, e comecei a ter aulas de flamenco, outra paixão desde que vira o filme de Saura
Bodas de Sangre. Só que eu sou ruim à beça na dança…
More tomorrow… Vou tentar arranjar umas fotos dessa época.
Querida Mara,
É um PRIVILÉGIO tê-la como amiga e fazer parte desse grupo maravilhoso Por Um Brasil Melhor. Todo meu carinho e admiração,
Tereza
Tenho recebido muitos comentários ao site e ao blog e fico muito feliz com eles. Peço desculpas também por às vezes não conseguir atualizar o blog ou escrever mais. É que felizmente ando trabalhando bastante.
Mas prometo contar mais de minha história bruxelense e episódios da atualidade no Brasil.
Pessoal,
Fiquei super feliz com as visitas e os comentários! E peço que me deem sugestões, façam perguntas, etc. Assim poderei tornar este espaço mais interessante para mais pessoas.
Estou animadíssima com o lançamento do novo site.
São muitas novas perspectivas, inimagináveis há algum tempo. Bem, eu já adoro a possibilidade de me comunicar com meus amigos fora do Brasil através do Skype ou Skype Out.
E agora acho que vou poder me comunicar com mais pessoas, o que é sempre ótimo
Fico maravilhada com essas novas possibilidades. Abrem-se oportunidades para pessoas do mundo inteiro, pessoas afastadas do eixo tradicional do poder político e econômico. Na minha modesta opinião, trata-se da maior inclusão social da história da humanidade.
Desde que, evidentemente, exista infraestrutura disponível para facilitar o acesso à internet.
É aí que reside o papel do Estado: garantir esse acesso. O resto podem deixar por nossa conta…
Estou ficando “preguiçosa” para escrever. É que tenho trabalhado muito! No começo do mês, tive o que chamo de “semana francesa”: vários dias trabalhando com uma empresa francesa e depois com um pensador do marketing do luxo, também francês. É impressionante como o conteúdo dos trabalhos varia. E os franceses têm algumas características próprias que eu adoro!
Depois disso, foi a semana do imobiliário: o Congresso Internacional da Associação Brasileira dos Shopping Centers e coisas afins.
Realmente, é um privilégio estar a par de tantas coisas bacanas que acontecem por aí. Infelizmente não posso entrar muito em detalhes, pois muita coisa é confidencial. Mas sem dúvida a profissão tem esse caráter generalista e também de estar sempre “na crista da onda”.
Abraços a todos, pois já é hora de dormir!